quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ah, menina, se eu pudesse, eu secava toda lágrima e te devolvia aquele sorriso, eternizado em fotografias. É que eu me lembro e me dói a imagem do teu sorriso de choro contido, riso fingido de dor mascarada. E me aperta toda lembraça sua por mim não vivida contada e recontada em diários de bordo de longas jornadas.

Menina, como estás? Já preparasse a mala para o novo?
Te desejo sol escaldante, peles morenas, bailes latinos, pimenta e cores, porres de tequila, limão e sal.

Ah, menina, e eu desejo tanto te esquecer. Esquecer teu nome, teu rosto, tua vida. Da tua voz eu já nem recordo mais...

terça-feira, 26 de junho de 2012

Beso amarillo y rojo




 "Nós somos um quadro de Klimt
O Beijo para sempre fagulhando em cores"

 Vanessa da Mata


terça-feira, 22 de maio de 2012

A menina ainda dança

Sal e limão. Duas doses de tequila. Ela bebe pra esquecer que nesta noite alguém a observa, que há um olhar sobre ela, que há um depois. Ela só quer se entregar à música, fazer o corpo entrar naquela cadência. Sem pensar no que o movimento sinuoso do seu corpo libertaria, provocaria. O que desperta? "É sexta-feira, amor!". Seu corpo quer apenas brincar, sentir a batida, dançar na mesma frequência.  Quer festar, celebrar, pedir passagem. Seu corpo quer jogar com o corpo das outras meninas que se divertem, quer entrar no compasso do corpo dele, sem pretensões. Rir, flutuar, seguir linhas curvílineas.

Ela se sente leve, rarefeita. Livre. Não há observador, julgamento ou moral. O corpo dele se entrelaça no seu, sem pudor, sem temor. Ele entrara pra brincadeira, também só se divertia, adentrara na música por completo, pés no chão, mente no ar. Transbordavam. A dança era de dois, um encontro. Estavam em um ritmo só. Braços, pernas e quadris. O calor que rondava e envolvia ambos fez pele transpirar em festim. 

Do fogo de um baile quente eles se foram pra friagem de uma madrugada descoberta. Naqueles dias eles se viram como nunca antes. Sentiram como nunca antes. Ele viu olhos de faísca, corpo em requebre, láscivo. Calor. Ela viu o que antes eram pontos cegos, ele permitiu que ela olhasse bem profundo, se mostrou quebradiço. Sem márcaras de segurança trocaram dores e traumas. Fazia muito frio, o ar era gélido, mas não se feriram. Não havia pesar, ainda transbordavam. O sol nascia. Céu, sal e limão.


"No canto do cisco
 No canto do olho
 A menina dança

 E dentro da menina
 A menina dança
 E se você fecha o olho
 A menina ainda dança
 Dentro da menina
 Ainda dança

 Até o sol raiar
 Até o sol raiar
 Até dentro de você nascer"

A menina dança - Novos Baianos

SER



EU

Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!


Florbela Espanca





 LXIX

 Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

Pablo Neruda




Não coloco em palavras a intensidade do ser
do estar, do viver.
A fluidez da experiência - imagens sobrepostas
em ritmo alucinante.
Imagens que evocam gostos, cheiros, luzes, sons, toques
não ouso descrever.
Meu corpo-mente experimenta, prova, investiga, contempla 
é tudo novo.

Sem parâmetros, sem referenciais.
Sem caminhos já trilhados.
Sem comparativos.
Sem chão, sem direção.
Sem sentido.
Com-sentir.
Só descobrir.
Desbravar.
Saborear.

Descortinar-me.
Conhecer-te.
Só.
Só?



domingo, 6 de maio de 2012

O natural é se arriscar, ele me disse. E o caminho mais ardiloso escolhi.
"O bom não é a paz, o equilíbro, a tranquilidade. O bom é aquilo que está em consonância com a nossa natureza, que é de lutar, de ousar, de pular pro desconhecido."
Você disse que eu deveria quebrar as pernas, e fazer tudo cair. Tudo. Criar.
Acho que é isso que agora eu vivo. Um salto, uma queda. Me quebras. Era o que pretendia, não? Quebrar, molhar, arrepiar...
Quebra de todos os paradigmas, as verdades. Dúvida de mim em cada interrogação que me traz. Quem somos? Quem sou? Estamos pra quando, por quanto?
Infinidades de descobertas. Sinestesia. Micro-múltiplas sensações.
Quebras.
Mudança. O novo, sempre, todo dia.

Entrei pra roda e ginguei. Menino, acompanha meu passo?

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Marino



És como mar aberto, estou a navegar
Distraída na linha do horizonte, flutuo
Teu suor ameno eu sinto em mim como maresia
salgada brisa
E te descubro sensação de espuma


Teu corpo é como uma ilha (perdida)




domingo, 22 de abril de 2012

Nem vi você chegar

Isso tudo me parece ainda irreal. Meu mundo girou, girou em linhas tortas, e eu te descobri, mais uma vez.
Antes, um rosto bonito, traços fortes, fala articulada, cabelos longos, calças folgadas, passos gingados, cores, um mistério. Algo novo, desconhecido e distante. Quem seria você? Supus uma idade, nome, profissão. Criei um universo, que não me cabia. Distante.
E hoje, te tenho aqui, do meu lado. Carinho, querer. Tão perto, cada vez mais. Ocupando meu espaços, brincado nos meus quintais. Sem permissão entrou, ficou, fincou, está. Abrindo cortinas. Me reconstruindo, me desnorteando.
E quando? Como? Por quê?
- É o tempo nos mostrando sua imprevisibilidade. Que tudo é possibilidade, movimento. Encontros e desencontros.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Doce Deletério

Imagem por Orlando Pedroso


Cuidado. Perigo.
Proibido. Entra.


"Nem quero pensar se é certo querer" - Chico César


terça-feira, 10 de abril de 2012

Da Fidelidade, de Vinicius.


"Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto"
"Só preciso de alguns abraços queridos, a companhia suave,
bate-papos que me façam sorrir, algum nível de embriaguez
e a sincronicidade: eu e você não acontecemos por uma relação causal, mas por uma relação de significado, que ainda estamos trabalhando."
Caio F. Abreu

Feito pra acabar

"Quantas são as dores e alegrias de uma vida?'
Estou disposta a descobrir, a amarrar e soltar, a permitir ser e não ser, a perder o controle, todo o controle. A me apegar desapegadamente, sem te fazer meu, eu. A me conhecer te conhecendo. A esquecer que há amanhã, que amanhã é findo. Porque hoje já doe, uma boa dor, uma boa dor.

"A gente é feito pra dizer
Que sim
A gente é feito pra caber
No mar"

Seja mar, me faça mar. Turbulento, violento, intenso, extenso, vai-e-vem, correnteza, fluxo contínuo.

domingo, 25 de março de 2012

O Lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem 3 há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui 8
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

Carlos Drummond de Andrade