quarta-feira, 13 de novembro de 2013

a ele sobra carinho, mas falta papo
a ele sobra papo, mas falta carinho
a ele sobra papo e carinho, sobra até amor
mas falta algo.

Magrelita

O controle dos corpos não recai apenas sobre xs gordinhxs.
Quantas vezes já não ouvi...
- Você é magra demais!
- Tá precisando ganhar uns quilinhos, hein?
- Seu corpo seria muito mais bonito se você tivesse uns quilinhos a mais.
E aquele vendedor que te diz que pra você ficar bem na marca "dele" só ganhando muito, mas muito mesmo.
E você começa a se incomodar com seu próprio corpo. E olhar com desprezo ou raiva cada ossinho a mostra.
E vai à balança; e lamenta os graminhas conquistados; e festeja quando são quilos.
E obedece uma dieta rígida e extensa, come banquetes, toma remédio, toma suplementos e "engorda". Quando chega ao seu peso "ideal" vem o discurso terrorista:
- Cuidado, assim você vai virar uma "bola" quando estiver mais velha!
E emagrece. Porque seu corpo perde gordura/massa corporal rápido demais. E lá vem de novo os comentários... Tá magrinha hein?

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sushi, chá bar
E esse seu jeito de falar
Cantar, dançar, olhar pra mim
Viver é não ter que transplantar…

Doar sangrar trocar chamar pedir mostrar mentir falar justificar no cais chorando não sou eu quem vai ficar dizendo adeus batucada macaco no seu galho da roseira em flor da laranjeira amor é choradeira horror a vida inteira à beira da loucura e a dor e a dor e a dor e a dor…

Sushi - Tulipa Ruiz

domingo, 20 de outubro de 2013

Isadora


Descalça, despida, envolvida apenas pela bandeira Argentina, Isadora Duncan dança o hino nacional.

Comete esta ousadia numa noite de 1916, num café de estudantes de Buenos Aires, e na manhã seguinte todo mundo sabe: o empresário rompe o contrato, as boas famílias devolvem suas entradas ao Teatro Colón e a imprensa exige a expulsão imediata desta pecadora norte-americana que veio à Argentina para macular os símbolos pátrios.

Isadora não entende nada. Nenhum francês protestou quando ela dançou a Marselhesa com um xale vermelho como traje completo. Se é possível dançar uma emoção, se é possível dançar uma ideia, porque não se pode dançar um hino?

A liberdade ofende. Mulher de olhos brilhantes, Isadora é inimiga declarada da escola, do matrimônio, da dança clássica e de tudo aquilo que engaiole o vento. Ela dança porque dançando goza, e dança o que quer, quando quer e como quer, e as orquestras se calam frente à música que nasce do seu corpo.

- Eduardo Galeano, Mulheres

Acho que foi dela que herdei esse brilho nos olhos, essa mania de pés descalços e música no corpo.

sábado, 21 de setembro de 2013

Sim, a menina ainda dança.
E como antes, retira as sandálias para dançar
Ela precisa sentir o chão
e permitir que a música lhe domine o corpo (ou liberte?).
Se reconecta.
Naquele instante já não há pesar
Leve, se deixa fluir
As pessoas ao seu redor já não estão
São também melodia
ou energia.
Pé faz círculos, vai ao ar, pisa forte
e seu corpo ginga
gargalha
grita.


- A felicidade assim como a tristeza vem, sutilmente.


De nuestros miedos
nacen nuestros corajes
y en nuestras dudas
viven nuestras certezas.
Los sueños anuncian
otra realidad posible
y los delirios otra razón.
En los extravios
nos esperan hallazgos,
porque es preciso perderse
para volver a encontrarse

Eduardo Galeano

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Poetisar

"De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás"

Cazuza


domingo, 2 de junho de 2013

Comia uma maçã vermelha, enquanto via o céu virar rio e desaguar. Sobre seu corpo o outro queimava em febre e o movimento os deixava tontos, em delírio. Como em um bom barco estavam indo e vindo, a procura de direção. Haviam largado as âncoras e não existia mais um porto.

Estava em encontro, se encantava com o por de lua de um e os raios solares que surgiam dos cabelos de outro. De risos e grilhos fizeram uma festa e celebraram o Ser mais. Trocaram, deixaram, apertaram, passaram.

A chuva que os molhou fez união, de ciranda e abraços.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Pra não ser tarde

"Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei
Era quase escravidão
Mas ela me tratava como um rei
Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela
Eu não tinha aonde ir
Mas, egoísta que eu sou,
Me esqueci de ajudar
A ela como ela me ajudou
E não quis me separar
Ela também estava perdida
E por isso se agarrava a mim também
E eu me agarrava a ela
Porque eu não tinha mais ninguém
E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo.
Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei
Ela falou: - Você tem medo.
Aí eu disse: - Quem tem medo é você.
Falamos o que não devia
Nunca ser dito por ninguém
Ela me disse: - Eu não sei mais o que eu
sinto por você.
Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê.
E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo."

Ela desligou a música e re-escreveu a história.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Quero amor leve e solto. De calor, cores e luz. Amor que faz fluir, como flâmula ao céu, quase a voar. Amor de Sol e sal. Amor de fruta doce. Amor de libertar.
Não quero penar, não quero mais pesar. Não quero coração-gelo, dor no peito, desespero. GRITAR!
Não quero corpo apertado, acuado, a quase vomitar.
Não quero obrigado, nem prazo. Não quero limitado.
Quero sem apego, sem sufoco, sem falta de ar.


segunda-feira, 4 de março de 2013

Pro ar.

De tanto eu te falar parece que as frases ditas se distanciaram de mim.
Agora sou eu no casulo me resguardando de voar. Escondida na concha do caracol, que fiz de lar.
Você voa, espalhando pólen, semeando encontros.
Eu reclamo pelas asas. Afinal, sou do ar. A escuridão da terra, que agora faço de toca, me assusta e traz vazio ao passo que conforta, apazigua e me conforma.
Toupeira não. Preciso ir ao encontro da luz. Cavar no sentido oposto à profundidade. Os caminhos de lá eu já sei bem. Tortuosos.
Leveza de voar. Necessito flutuar (para o novo).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

18 anos. Virei gente.


Cale a boca, menina, criança não tem querer. Criança não tem vontade. Criança não tem desejo.
Criança só chora quando apanha. Por isso apanha, pra ter razão pra chorar.

- Vai apanhar pra chorar com motivo, com vontade, de verdade!

- Vai ter a marca, os cincos dedos da minha mão!

- Quem você pensa que é? Eu decido como as coisas acontecem aqui. Eu te governo.

- Mal criada, me respeite. Se coloque no seu lugar.

- Nem gente é, acha que tem direito...

Letícia não decide, não escolhe. Não tem direito, nem voz. Não pode reclamar. Tem que respeitar a todos, mas ninguém precisa respeitar Letícia. Letícia é governada, só deve obediência.

Letícia não para de chorar. Esperneia, grita, faz escândalo.
Letícia quer virar gente.






Isadora é Letícia. Letícia somos.
Isadora aprendeu a temer e falar baixinho.
Isadora aprende a soluçar alto.