Todo mandato é minucioso
e cruel,
eu gosto
das frugais transgressões
por exemplo inventar o bom
amor
aprender
nos corpos e em seu corpo
ouvir a noite e não dizer
amém
traçar
cada um o mapa de sua audácia
mesmo que nos esqueçamos
de esquecer
é certo
que a recordação nos esquece
obedecer cegamente deixa
cego
crescemos
somente na ousadia
só quando transgrido alguma
ordem
o futuro
se torna respirável
todo mandato é minucioso
e cruel
eu gosto
das frugais transgressões
Mario Benedetti
domingo, 19 de janeiro de 2014
sábado, 18 de janeiro de 2014
Espiritualidade
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Trecho de "Há metafísica bastante em não pensar em nada", de Alberto Caeiro
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Trecho de "Há metafísica bastante em não pensar em nada", de Alberto Caeiro
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Magrelita
O controle dos corpos não recai apenas sobre xs gordinhxs.
Quantas vezes já não ouvi...
- Você é magra demais!
- Tá precisando ganhar uns quilinhos, hein?
- Seu corpo seria muito mais bonito se você tivesse uns quilinhos a mais.
E aquele vendedor que te diz que pra você ficar bem na marca "dele" só ganhando muito, mas muito mesmo.
E você começa a se incomodar com seu próprio corpo. E olhar com desprezo ou raiva cada ossinho a mostra.
E vai à balança; e lamenta os graminhas conquistados; e festeja quando são quilos.
E obedece uma dieta rígida e extensa, come banquetes, toma remédio,
toma suplementos e "engorda". Quando chega ao seu peso "ideal" vem o
discurso terrorista:
- Cuidado, assim você vai virar uma "bola" quando estiver mais velha!
E emagrece. Porque seu corpo perde gordura/massa corporal rápido demais. E lá vem de novo os comentários... Tá magrinha hein?
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Sushi, chá bar
E esse seu jeito de falar
Cantar, dançar, olhar pra mim
Viver é não ter que transplantar…
Doar sangrar trocar chamar pedir mostrar mentir falar justificar no cais chorando não sou eu quem vai ficar dizendo adeus batucada macaco no seu galho da roseira em flor da laranjeira amor é choradeira horror a vida inteira à beira da loucura e a dor e a dor e a dor e a dor…
Sushi - Tulipa Ruiz
E esse seu jeito de falar
Cantar, dançar, olhar pra mim
Viver é não ter que transplantar…
Doar sangrar trocar chamar pedir mostrar mentir falar justificar no cais chorando não sou eu quem vai ficar dizendo adeus batucada macaco no seu galho da roseira em flor da laranjeira amor é choradeira horror a vida inteira à beira da loucura e a dor e a dor e a dor e a dor…
Sushi - Tulipa Ruiz
domingo, 20 de outubro de 2013
Isadora
Descalça, despida, envolvida apenas pela bandeira Argentina, Isadora Duncan dança o hino nacional.
Comete esta ousadia numa noite de 1916, num café de estudantes de Buenos Aires, e na manhã seguinte todo mundo sabe: o empresário rompe o contrato, as boas famílias devolvem suas entradas ao Teatro Colón e a imprensa exige a expulsão imediata desta pecadora norte-americana que veio à Argentina para macular os símbolos pátrios.
Isadora não entende nada. Nenhum francês protestou quando ela dançou a Marselhesa com um xale vermelho como traje completo. Se é possível dançar uma emoção, se é possível dançar uma ideia, porque não se pode dançar um hino?
A liberdade ofende. Mulher de olhos brilhantes, Isadora é inimiga declarada da escola, do matrimônio, da dança clássica e de tudo aquilo que engaiole o vento. Ela dança porque dançando goza, e dança o que quer, quando quer e como quer, e as orquestras se calam frente à música que nasce do seu corpo.
- Eduardo Galeano, Mulheres
Acho que foi dela que herdei esse brilho nos olhos, essa mania de pés descalços e música no corpo.
sábado, 21 de setembro de 2013
Sim, a menina ainda dança.
E como antes, retira as sandálias para dançar
Ela precisa sentir o chão
e permitir que a música lhe domine o corpo (ou liberte?).
Se reconecta.
Naquele instante já não há pesar
Leve, se deixa fluir
As pessoas ao seu redor já não estão
São também melodia
ou energia.
Pé faz círculos, vai ao ar, pisa forte
e seu corpo ginga
gargalha
grita.
- A felicidade assim como a tristeza vem, sutilmente.
E como antes, retira as sandálias para dançar
Ela precisa sentir o chão
e permitir que a música lhe domine o corpo (ou liberte?).
Se reconecta.
Naquele instante já não há pesar
Leve, se deixa fluir
As pessoas ao seu redor já não estão
São também melodia
ou energia.
Pé faz círculos, vai ao ar, pisa forte
e seu corpo ginga
gargalha
grita.
- A felicidade assim como a tristeza vem, sutilmente.
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